18nov 2014

poesia-marginal

A Geração Mimeógrafo, ou Poesia Marginal, contou com importantes nomes que divulgaram a nova concepção artística na literatura brasileira (inovação encontrada também no Concretismo), fruto das primeiras rupturas literárias apresentadas pelos escritores modernistas da segunda década do século XX.

A poesia de mimeógrafo ficou conhecida por esse nome porque muitos poetas recorriam ao mimeógrafo (máquina para realizar cópias, com um original escrito ou desenhado em relevo) para reproduzirem seus textos e livros. O método quase artesanal era um processo alternativo de criação, produção e distribuição do poema, que substituía os meios tradicionais de circulação das obras, como editoras e livrarias. Vendidos de mão em mão, os livros eram comercializados a baixo custo para um público restrito que frequentava eventos relacionados com a cultura marginal, assim conhecida por estar fora dos cânones literários e à margem da crítica literária.

Na literatura e na poesia, a marginália foi representada por nomes como Paulo Leminski, José Agripino de Paula, Waly Salomão, Francisco Alvim, Torquato Neto e Chacal. No campo musical, já que a marginália foi um movimento que influenciou as diversas artes, os principais nomes desse período foram Sérgio Sampaio, Tom Zé, Jorge Mautner, Jards Macalé e Luiz Melodia, que posteriormente foram rotulados pela imprensa como “compositores malditos” da MPB, epíteto ingrato e nada simpático para aqueles que não encontravam espaço nas grandes gravadoras de discos da época.

 

Gilete Press

Oi. Novamente suas mãos seguram este pequeno pedaço de papel com pedaços de mim e de muitas outras pessoas queridas.

Começando com um simples “oi”, o poeta Luiz Fafau lançava a edição de agosto de 1986 de Gilete Press (1985?-1989?) em Goiânia. Modesto, o periódico era um dos folhetos da poesia marginal, gênero nascido da contracultura e da Tropicália, que sacudiram as letras nacionais na década de 1970 com nomes como Torquato Neto, Roberto Piva, Waly Salomão e outros. Alguns desses autores formaram a “Geração Mimeógrafo”, integrada por artistas excluídos do mercado editorial que rodavam seus livros artesanalmente. Impresso em uma folha de papel dobrada, Gilete Press era um apanhado de recortes de ilustrações, poesias datilografadas e textos de outros impressos, montados e fotocopiados. Ali, poemas dividiam espaço com recados politizados que contextualizavam a publicação no recente fim da ditadura militar – Constituinte sem povo não cria nada de novo.

Gilete Press trazia tanto poetas consagrados, como Ferreira Gullar, quanto marginais. Naquela edição de agosto de 1986, ele publicava “Bermuda Larga”, do carioca Chacal:

Muitos lutam por uma causa justa/ Eu prefiro uma bermuda larga/ Só quero o que não me encha o saco/ Luto pelas pedras fora do sapato.

Causas justas, no entanto, eram salpicadas ao longo das edições: Não às armas atômicas, Extinção é para sempre (um pouco óbvio, contra a matança de baleias), Franquia postal para os alternativos!, etc. Gilete Press ainda comentava notícias da imprensa, um espetáculo que ia do crítico ao cômico. Na mesma edição de agosto aparecia a matéria “Filme leva mais um a depor na Polícia Federal”, por conta de uma exibição de JeVousSalue, Marie, de Jean-Luc Godard, na Universidade Federal de Goiás. Ao lado, em uma frase solta no meio da página, Luiz Fafau ironizava: Nova República também é cultura.

gilete

Entre poemas engajados, o editor Luiz Fafau deixava claras a informalidade e a cordialidade do periódico, lançando no fim de algumas edições a frase “Um abraço ao pessoal que tem dado sempre um alô”. Era o caso de Jairo Jhade Galahade, editor do Mimeógrafo Generation (1986-1992?), em São Paulo.

 

Mimeógrafo Generation

O periódico paulista era um pouco diferente de Gilete Press. Com o boom dos textos mimeografados de escritores independentes e o crescimento da arte postal nos anos 1980 – quando poetas e artistas visuais divulgavam suas publicações pelo correio –, um gênero híbrido entre poemas e imagens se desenvolveu, flertando com a cultura pop (nem que fosse para criticá-la), empolgando-se com rock’n’roll, poemas-processo, quadrinhos e o movimento anarcopunk. Na época, muitos jovens editores divulgavam a poesia marginal junto com homenagens a seus ídolos, que iam de Oswald de Andrade a John Lennon. Assim nasciam os fanzines, publicações de “fãs”. O Mimeógrafo Generation não escapava a essa tendência.

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Na edição de março de 1986, o Mimeógrafo publicava os poetas Touchê, Luiz Ruffato, Paulo Leminski e Marcelo Dolabela. Na capa da edição de setembro, uma poesia (provavelmente de Galahade) tinha seus versos cuspidos de uma garrafa de Coca-Cola:

Fórmula química secreta/ Gás miraculoso/ Xarope multinacional/ Marca registrada/ Sem valor comercial/ Matéria cultural/ Sem valor comercial/ Matéria sem valor.

Na seção “Let me Traduceslation”, no entanto, o lado “fã” do periódico aflorava. Ali, a canção With a little help from my friends, dos Beatles, virava “Com uma mãozinha de meus amigos” – versão assinada “Galahade/Lennon/McCartney”. O quinto beatle era então exposto. Jim Morrison ainda apareceria num número de 1992, apontando para o leitor e ordenando: Mude hoje a fantasia.

Como o Gilete Press, o Mimeógrafo Generation mandava recados para poetas: Ruffato veio mesmo para Sampa! (…) ainda vamos encher a cara por aqui!, Márcio Almeida manda-me poema inédito (diz ele!) que é um chtz-chute no saco da poesia pra turista! (o que quer que isso seja), ou ainda Aricy Curvello aconselha os poetas da marginália a doarem um exemplar de suas obras (…) à Biblioteca Nacional (…). Pensando bem é uma boa!.

A maioria dos periódicos de poesia marginal na BN foi doada por Aricy. Foi mesmo uma boa.

Nem sempre os periódicos de poesia marginal ficavam “entre amigos”. Antecipando o Creative Commons, organização que atualmente visa ao compartilhamento de obras criativas com menos restrições de direitos autorais, parte deles simplesmente transcrevia autores de seu gosto, sem pedir autorização. Uma vez, consultado pelo Setor de Periódicos da Biblioteca Nacional sobre textos seus no mimeografado O Berração, sem registro de local, o escritor curitibano Cristóvão Tezza se surpreendeu: “Confesso que não tenho a menor lembrança do que seja.Você pode me dizer que texto meu está no pacote?” Naquele tempo, ninguém era de ninguém.

O inconformismo com os moldes literários impostos pela academia e com a chamada “cultura oficial” brasileira, responsável por deixar à margem toda produção cultural que estava fora dos padrões, foi a força motriz para esse grupo de artistas criativos que subverteram a mesmice ao propor uma constante inovação poética. A Poesia Marginal não ganhou um capítulo só seu nos livros didáticos de Literatura Brasileira, mesmo porque nunca foi considerada um movimento literário, e sim um movimento de poesia, mas ainda assim deixou um legado para diversos poetas e escritores.

Separamos dois exemplos da poesia marginal para o deleite dos leitores:

JOGOS FLORAIS
Cacaso

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

COGITO
Torquato neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

 

 

Fontes:

http://www.brasilescola.com/literatura/poesia-marginal.htm (adaptado)

http://www.revistadehistoria.com.br/secao/por-dentro-da-biblioteca/pouco-formalismo-e-muita-poesia (adaptado)

http://www.revistabula.com/65-os-10-maiores-poema/

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